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Anticoncepcional hormonal: você sabe o que está tomando?

Atualizado: há 4 horas

Anticoncepcionais hormonais podem evitar gravidez, reduzir cólicas, controlar sangramentos, melhorar acne e ajudar no tratamento de endometriose, adenomiose e síndrome dos ovários policísticos.


Podem ser úteis. Mas isso não significa que sejam neutros, que funcionem da mesma forma para todas as mulheres ou que devam ser a resposta automática para qualquer alteração menstrual.


Antes de iniciar o uso, a mulher precisa entender como o método funciona, quais são seus riscos e se aquela prescrição realmente responde às suas necessidades.


O ciclo não foi necessariamente regulado


Grande parte dos anticoncepcionais hormonais impede a ovulação e substitui as oscilações naturais do ciclo pela administração de hormônios.


Nas pílulas combinadas, o sangramento que aparece durante a pausa costuma ser provocado pela interrupção dos hormônios. Não corresponde necessariamente a uma menstruação produzida depois de uma ovulação.


Por isso, uma mulher que tinha ciclos irregulares e passou a sangrar a cada 28 dias não teve, obrigatoriamente, o ciclo regulado. O sangramento apenas passou a obedecer à cartela.

Isso pode controlar o sintoma, mas não explica sua causa.


Alterações da tireoide, elevação da prolactina, síndrome dos ovários policísticos, alimentação insuficiente e exercício excessivo podem continuar existindo mesmo quando a irregularidade menstrual desaparece durante o uso.


Os efeitos dependem do método


Pílulas combinadas, adesivos e anéis vaginais contêm estrogênio e progestagênio. Minipílulas, implantes, alguns injetáveis e DIUs hormonais utilizam apenas progestagênio.


Esses métodos não apresentam o mesmo perfil de risco.


O DIU hormonal libera levonorgestrel principalmente dentro do útero e produz exposição sistêmica menor do que vários outros métodos. Entretanto, menor exposição não significa ausência de absorção ou impossibilidade de efeitos fora do útero.


Também existem diferenças importantes entre pílulas, implantes e injetáveis. Portanto, não faz sentido atribuir a todos os anticoncepcionais os mesmos benefícios, riscos ou efeitos colaterais.


Efeitos adversos podem comprometer a continuidade


Sangramento irregular, náusea, dor de cabeça e sensibilidade nas mamas estão entre os efeitos adversos mais frequentes.


Algumas mulheres também relatam piora do humor, ansiedade ou redução da libido. Os estudos não demonstram que essas alterações aconteçam com todas as usuárias, mas isso não torna irrelevante a relação entre o início do método e o aparecimento dos sintomas.


Anticoncepcionais combinados aumentam a SHBG, uma proteína que se liga aos hormônios sexuais, e reduzem a testosterona livre. A consequência clínica varia, mas essa alteração pode participar da redução do desejo sexual em algumas mulheres.


O ganho de peso também não ocorre uniformemente com todos os métodos. A associação é mais consistente com o injetável de medroxiprogesterona, que ainda pode reduzir temporariamente a densidade mineral óssea.


O risco de trombose existe


Métodos combinados aumentam o risco de tromboembolismo venoso. Em mulheres jovens e saudáveis, o risco absoluto continua relativamente baixo, mas varia conforme a dose de estrogênio, o tipo de progestagênio e os fatores individuais.


Formulações contendo levonorgestrel tendem a apresentar um perfil trombótico mais favorável do que algumas opções com desogestrel ou drospirenona.


O estrogênio pode ser contraindicado em situações como:

  • enxaqueca com aura;

  • trombose anterior ou trombofilias;

  • hipertensão arterial grave;

  • acidente vascular cerebral ou doença cardiovascular;

  • determinadas doenças hepáticas;

  • câncer de mama atual;

  • tabagismo importante a partir dos 35 anos;

  • cirurgia de grande porte com imobilização prolongada.


Métodos apenas com progestagênio geralmente apresentam um perfil mais favorável em relação à trombose, mas não são todos equivalentes. O DIU hormonal não demonstrou aumento significativo do risco em estudos recentes, enquanto o injetável de medroxiprogesterona exige avaliação mais cuidadosa.


A eficácia da pílula na vida real não é a da bula


Com uso perfeito, pílulas, adesivos e anéis apresentam falha inferior a 1% ao ano.

No uso habitual, a taxa fica próxima de 7%.


A diferença aparece porque pessoas esquecem comprimidos, atrasam trocas, têm vômitos, diarreia ou utilizam medicamentos que reduzem a eficácia contraceptiva.


Implantes e DIUs apresentam taxas de falha inferiores a 1% porque não dependem de uma ação repetida da usuária.


Nenhum desses métodos, entretanto, protege contra infecções sexualmente transmissíveis.


Existe uma possível associação com câncer de mama


Estudos observacionais identificaram um pequeno aumento do risco de câncer de mama entre usuárias atuais ou recentes de alguns anticoncepcionais hormonais, inclusive do DIU com levonorgestrel. Como o risco basal em mulheres jovens é baixo, o número absoluto de casos adicionais também costuma ser pequeno.


Por outro lado, o uso de anticoncepcionais combinados está associado à redução do risco de câncer de ovário e de endométrio.


A informação não serve para afirmar que anticoncepcional causa câncer nem para fingir que o assunto não existe. Serve para que a escolha considere idade, histórico clínico, risco individual e duração prevista do uso.


A fertilidade costuma retornar, mas pode demorar


O uso prolongado da pílula não parece causar infertilidade permanente.


Depois da suspensão, entretanto, pode existir um atraso temporário no retorno da fertilidade. Ele tende a ser maior com os injetáveis e menor após a retirada do DIU ou do implante.


Pílulas e anéis também podem ser seguidos por alguns ciclos de adaptação.


Além disso, problemas que já existiam antes do anticoncepcional podem reaparecer depois da suspensão. Se a mulher tinha ciclos irregulares ou não ovulava adequadamente, o sangramento previsível produzido durante o uso não tratou necessariamente essa alteração.


Escolher exige entender


A contracepção não deve considerar apenas a eficácia para evitar gravidez.


Também importam os efeitos sobre sangramento, pele, humor, libido, pressão arterial, risco trombótico, saúde óssea e retorno da fertilidade.


Existem opções hormonais e não hormonais, incluindo DIU de cobre, preservativos e métodos de percepção da fertilidade. Cada uma apresenta benefícios, limitações e taxas de falha diferentes.


Antes de escolher um anticoncepcional, a mulher precisa entender como ele funciona, quais são os riscos, o que pode acontecer durante o uso e quais alternativas existem.

Também precisa saber se o medicamento está tratando um problema ou apenas escondendo um sintoma.


Isso não deveria ser uma exigência particularmente sofisticada.

Afinal, a cartela é comprada na farmácia. O consentimento informado não deveria vir dobrado dentro da caixa.


Referências


Centers for Disease Control and Prevention. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recommendations and Reports, 2024.

Centers for Disease Control and Prevention. Contraception and Birth Control Methods, 2024.

Zimmerman Y, et al. The Effect of Combined Oral Contraception on Testosterone Levels in Healthy Women. Human Reproduction Update, 2014.

de Wit AE, et al. Hormonal Contraceptive Use and Depressive Symptoms. BJPsych Open, 2021.

Mørch LS, et al. Contemporary Hormonal Contraception and the Risk of Breast Cancer. The New England Journal of Medicine, 2017.

American College of Obstetricians and Gynecologists. Depot Medroxyprogesterone Acetate and Bone Effects. Obstetrics & Gynecology, 2014.




 
 
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Dra. Carolina Melendez

Portugal: Ordem dos Médicos nº 76181 | Exercício em Clínica Geral
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