Menopausa: o que muda, o que incomoda e o que merece tratamento
- Carolina Melendez
- 26 de set. de 2024
- 8 min de leitura
Atualizado: há 5 horas
A menopausa já foi apresentada como o fim da juventude, o começo de uma nova fase e uma oportunidade de redescobrir a própria essência. Nenhuma dessas definições explica o que fazer quando a mulher acorda três vezes durante a noite, passa calor em uma sala com ar-condicionado e começa a achar que tem Alzheimer.
A menopausa não é uma doença. Também não é um Portal para o Inferno.
Entender o que está acontecendo, reconhecer os sintomas e identificar as possibilidades de tratamento costuma ser mais útil do que tentar transformar ondas de calor em uma experiência de autoconhecimento.
A menopausa tem uma definição específica
A menopausa corresponde à última menstruação da vida da mulher. Entretanto, isso só pode ser confirmado depois de 12 meses consecutivos sem menstruar, desde que não exista outra explicação para a ausência de sangramento.
Ela acontece porque os ovários reduzem progressivamente sua atividade e a produção de hormônios, especialmente o estrogênio.
Na maioria das mulheres, ocorre entre os 45 e os 55 anos. A idade média é de aproximadamente 51 anos, mas existe uma variação individual considerável.
Quando a perda da função ovariana acontece antes dos 40 anos, pode estar relacionada à insuficiência ovariana prematura. Nesses casos, a avaliação e o tratamento têm características próprias.
A retirada cirúrgica dos dois ovários também pode provocar menopausa. Já a retirada apenas do útero interrompe a menstruação, mas não significa que os ovários pararam de funcionar.
Ou seja, não menstruar e estar na menopausa nem sempre são a mesma coisa.
A perimenopausa começa antes da última menstruação
A transição para a menopausa costuma começar anos antes de a menstruação cessar definitivamente.
Esse período é chamado de perimenopausa e pode ser marcado por alterações na duração dos ciclos, meses sem menstruar, mudanças no fluxo e sintomas relacionados à oscilação hormonal.
Algumas mulheres percebem primeiro que a menstruação começou a adiantar ou atrasar. Outras continuam menstruando com relativa regularidade, mas já apresentam ondas de calor, alterações do sono ou mudanças de humor.
Os hormônios não diminuem de maneira organizada e previsível. Durante essa fase, seus níveis podem variar bastante, o que ajuda a explicar por que os sintomas mudam de intensidade ao longo do tempo.
Também é importante lembrar que ciclos irregulares não funcionam como método contraceptivo. Enquanto a menopausa não estiver estabelecida, ainda pode existir possibilidade de gravidez.

Ondas de calor não são exagero
Os sintomas vasomotores, principalmente as ondas de calor e a sudorese noturna, estão entre as manifestações mais características da transição menopausal.
Eles podem surgir de repente, provocar vermelhidão, palpitações e suor intenso, e durar de alguns segundos a vários minutos. À noite, podem interromper o sono repetidamente. Durante o dia, podem afetar o trabalho, a concentração e a disposição.
Para algumas mulheres, são leves e ocasionais. Para outras, acontecem várias vezes por dia e permanecem durante anos. A intensidade varia, mas o impacto não precisa ser minimizado só porque o sintoma é comum.
É muito fácil dizer que “é normal” quando o pijama encharcado não é o seu.
Sono, humor e concentração também podem mudar
A perimenopausa e a menopausa podem estar associadas a dificuldade para dormir, despertares frequentes, irritabilidade, ansiedade, mudanças de humor e sensação de dificuldade de concentração.
Parte desses sintomas pode estar relacionada às alterações hormonais. Outra parte pode resultar das próprias ondas de calor, da privação de sono, do estresse e de fatores que se acumulam nessa fase da vida.
A percepção de memória pior também é uma queixa frequente. Isso não significa que toda mulher na menopausa esteja desenvolvendo demência, nem que qualquer dificuldade para lembrar uma palavra seja sinal de uma doença neurológica.
Por outro lado, sintomas persistentes, intensos ou progressivos precisam ser avaliados.
Menopausa não exclui depressão, transtornos de ansiedade, apneia do sono, deficiência de ferro, alterações da tireoide ou outras condições que também podem causar cansaço e dificuldade de concentração.
Nem tudo o que acontece depois dos 40 merece ser automaticamente colocado na conta da menopausa.
Ressecamento vaginal e sintomas urinários
A queda do estrogênio pode provocar alterações na vulva, na vagina e no trato urinário.
Esse conjunto de manifestações é chamado de síndrome geniturinária da menopausa e pode incluir:
ressecamento vaginal;
ardor, coceira ou irritação;
dor durante a relação sexual;
desconforto para urinar;
aumento da urgência urinária;
infecções urinárias recorrentes.
Diferentemente das ondas de calor, que podem diminuir com o tempo, esses sintomas tendem a persistir ou piorar quando não são tratados.
Lubrificantes e hidratantes vaginais podem ajudar, principalmente nos quadros mais leves. Para muitas mulheres, o estrogênio vaginal em baixa dose também é uma opção eficaz.
O tratamento local não tem o mesmo perfil de exposição hormonal da terapia sistêmica. Por isso, sua avaliação não deve ser feita automaticamente como se fossem a mesma coisa. O laser vaginal também vem sendo estudado e utilizado no tratamento de determinados sintomas geniturinários.
Mesmo mulheres que utilizam terapia hormonal sistêmica podem precisar de tratamento vaginal específico.
Dor durante a relação não precisa ser aceita como parte obrigatória do envelhecimento. Nem vontade de urinar a cada meia hora deve ser tratada como uma característica interessante da maturidade.
Osso, músculo e saúde cardiovascular
A redução do estrogênio pode acelerar a perda de massa óssea, especialmente nos primeiros anos após a menopausa.
Com o tempo, isso pode aumentar o risco de osteoporose e fraturas, principalmente quando existem outros fatores associados, como histórico familiar, baixo peso, tabagismo, sedentarismo ou uso prolongado de determinados medicamentos.
Também podem ocorrer mudanças na composição corporal, com aumento da gordura abdominal e redução da massa muscular.
Essas alterações não dependem exclusivamente dos hormônios. Idade, alimentação, sono, nível de atividade física, medicamentos e condições clínicas também participam desse processo.
A saúde cardiovascular merece atenção pelo mesmo motivo. Pressão arterial, colesterol, glicemia, tabagismo e histórico familiar continuam sendo relevantes, independentemente de a mulher apresentar ou não ondas de calor.
Exercícios aeróbicos, treinamento de força, alimentação adequada e acompanhamento dos fatores de risco ajudam a preservar massa muscular, saúde óssea e capacidade funcional.
Isso não significa que exercício substitua tratamento quando ele é necessário. Significa apenas que nenhum hormônio sozinho realiza milagres.
Exames podem ajudar, mas não fazem diagnóstico
Em mulheres acima dos 45 anos com sintomas compatíveis e alterações menstruais típicas, o diagnóstico da transição menopausal costuma ser clínico.
Isso significa que a história da paciente, a idade e o padrão dos sintomas geralmente são mais úteis do que uma dosagem hormonal isolada.
Durante a perimenopausa, os níveis de FSH e estrogênio podem variar bastante. Portanto, um resultado considerado normal em determinado dia não exclui a possibilidade de que a mulher esteja nessa fase.
Exames podem ser necessários em situações específicas, como sintomas antes dos 45 anos, suspeita de insuficiência ovariana prematura, uso de métodos hormonais que alteram o sangramento ou investigação de outras causas para os sintomas.
Também podem ser indicados para avaliar anemia, deficiência de ferro, alterações da tireoide, risco cardiovascular e saúde óssea, dependendo do histórico de cada mulher.
Outra observação importante: qualquer sangramento que apareça depois de a menopausa estar estabelecida precisa ser investigado.

Terapia hormonal pode ajudar, mas não é uma obrigação
Nem toda mulher na menopausa precisa de medicação.
Quando os sintomas são leves ou não comprometem a qualidade de vida, acompanhamento e medidas individualizadas podem ser suficientes.
Por outro lado, a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para ondas de calor e sudorese noturna que causam desconforto importante. Também pode contribuir para a proteção óssea e para a melhora de alguns sintomas relacionados à menopausa.
A indicação depende da intensidade dos sintomas, da idade, do tempo desde a menopausa, do histórico médico e das preferências da paciente.
De maneira geral, a relação entre benefícios e riscos costuma ser mais favorável quando o tratamento é iniciado antes dos 60 anos ou nos primeiros dez anos após a menopausa.
Isso não significa que todas as mulheres devam começar a terapia hormonal nessa fase, nem que o tratamento precise ser interrompido automaticamente ao atingir determinada idade.
O acompanhamento deve considerar a dose, a forma de administração, a duração do uso e a necessidade de reavaliações periódicas.
A forma de usar os hormônios também faz diferença
O estrogênio pode ser utilizado de diferentes maneiras, incluindo comprimidos, adesivos e géis.
Em determinadas situações, a administração pela pele pode apresentar um perfil de risco mais favorável em relação à trombose do que a via oral.
Mulheres que ainda têm útero geralmente precisam utilizar progesterona ou outro progestagênio associado ao estrogênio para proteger o endométrio. A via de administração, a dose e o acompanhamento devem ser definidos conforme as características de cada paciente.
Quem retirou o útero, em geral, não precisa dessa associação, embora existam situações específicas que exigem avaliação individual.
A terapia hormonal sistêmica pode não ser indicada para mulheres com histórico de determinados tipos de câncer, trombose, acidente vascular cerebral, doença cardiovascular descompensada, doença hepática ou sangramento uterino sem diagnóstico.
Essas condições precisam ser analisadas no contexto clínico de cada paciente. A decisão não deve ser baseada apenas na experiência de uma amiga, em uma lista pronta da internet ou na promessa de que existe uma fórmula capaz de servir igualmente para todas.
Hormônios "bioidênticos" são substâncias com estrutura molecular igual à dos hormônios produzidos pelo organismo. Eles podem estar presentes tanto em medicamentos industrializados disponíveis nas farmácias quanto em formulações manipuladas. São medicamentos como quaisquer outros: podem ser úteis, têm indicações, riscos e benefícios, e precisam ser prescritos na dose e na forma adequadas.
A palavra “bioidêntico” descreve a estrutura do hormônio. Não dispensa avaliação, acompanhamento nem bom senso.
Existem alternativas para quem não pode ou não quer usar hormônios
Mulheres com contraindicações à terapia hormonal, ou que simplesmente preferem não utilizá-la, também podem receber tratamento.
Alguns medicamentos não hormonais podem ajudar no controle das ondas de calor, dependendo dos sintomas, das condições clínicas e da disponibilidade de cada opção.
Medidas direcionadas ao sono, acompanhamento psicológico, manejo da ansiedade e ajustes na rotina também podem fazer parte do tratamento.
Para sintomas vaginais e urinários, a abordagem pode incluir hidratantes, lubrificantes, estrogênio vaginal e outras possibilidades, sempre considerando a avaliação individual e as evidências disponíveis.
O objetivo não é convencer todas as mulheres a tomar hormônios. Também não é transformar a ausência de tratamento em uma espécie de superioridade moral.
O tratamento adequado é aquele que considera o que incomoda, o que é seguro e o que faz sentido para a mulher que vai conviver com a decisão.
A vida muda, e a rotina também precisa mudar
A menopausa é uma etapa natural da vida. A intensidade dos sintomas, os riscos associados e a necessidade de tratamento variam de uma mulher para outra.
Algumas passam por essa fase com poucas mudanças. Outras enfrentam ondas de calor persistentes, insônia, dor durante a relação, alterações urinárias e impacto importante na qualidade de vida.
Mas, mesmo quando os sintomas não são intensos, o corpo já não responde da mesma maneira a hábitos que antes pareciam inofensivos.
Noites mal dormidas, alimentação inadequada, excesso de álcool, sedentarismo e falta de recuperação podem começar a cobrar um preço muito mais evidente na disposição, no humor e na qualidade de vida.
Isso não significa que a mulher precisa virar atleta, abolir qualquer prazer ou organizar a vida em torno de uma cartilha de hábitos perfeitos.
Significa que as prioridades podem precisar mudar.
Dormir melhor, preservar massa muscular, cuidar da alimentação, reduzir o que piora os sintomas e procurar tratamento quando necessário são formas de atravessar essa fase com mais autonomia e menos desgaste.
A menopausa pode, sim, ser um novo começo. Não porque exista alguma obrigação de enxergar beleza em cada onda de calor, mas porque o corpo muda e a vida precisa acompanhar.
Pode-se continuar fazendo tudo exatamente igual, claro. Só não dá mais para contar com a tolerância de antes.

Referências
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